quarta-feira, abril 29

[ÁLBUM NOVO] Veckatimust


É reconfortante, e um alívio até, quando as maiores expectativas que temos em relação a artistas e bandas de que gostamos são confirmadas pelos seus mais recentes trabalhos, e mais ainda quando nos atingem e atordoam de maneiras de que não estávamos à espera. Hype justificado: é reconfortante, o novo álbum dos Grizzly Bear, Veckatimest, que, apesar de já circular pela Net desde inícios de Março, só terá edição oficial a 26 de Maio.

Daniel Rossen volta à equipa habitual, depois dos Department of Eagles, fruto da parelha com Fred Nicolaus, e a respectiva edição do imperdível In Ear Park, lançado e aclamado em 2008.

Os Grizzly Bear não tinham aqui tarefa propriamente fácil, depois de serem levados aos píncaros por muito boa gente ao terem criado aquele que é muitas vezes citado como um dos álbuns da década, Yellow House. Na avidez e sofreguidão com que os melómanos consumiriam o novo álbum, nunca haveria espaço para perdões ou contemplações, já se sabe como é.

Tudo isso se torna irrelevante, a partir do play. Começando por "Southern Point", faixa que inaugura o disco, Veckatimest agarra-nos pelo pescoço e não nos larga mais. E também não apetece espernear.

Antes de mais, encontramos os Grizzly Bear em toda a sua singularidade e idiossinacrasia: há a riqueza das texturas tecidas por uma produção imaculada (audição com heaphones OBRIGATÓRIA!); há uma voz sincera e genuína; há coros angelicais polvilhados por cima dos esqueletos de guitarras graves e distorcidas; há o folk, acústico e delicado; há canções que murmuram e se agigantam até não deixarem nenhum pixel da imagem em branco; há o íntimo; há o épico. Enche-nos as medidas.

Mas, além de (ou antes, subjacente a) tudo isso, há algo mais.

Poucos álbuns conseguem transmitir a sensação de estarmos a ouvir uma coisa inovadora sem nunca perdermos a familiaridade e o ponto de contacto com o que se vai passando. No entanto, Veckatimest fá-lo de forma brilhante, porque mantém a tentação do experimentalismo exagerado e do devaneio em rédea curta. Claro que não é integralmente assim, porque nem todas as faixas são canções puras, mas, para uma banda da natureza e com o contexto estilístico dos Grizzly Bear, normalmente confortável em terrenos mais psicadélicos, encontramos aqui um considerável respeitinho pelos cânones. De facto, há em todo o álbum uma fidelidade aos dogmas da linguagem pop (aquela dos Beatles, dos Beach Boys e afins), um compromisso com a subtileza das melodias, com a estrutura harmónica e com o formato canção que nos acena à memória colectiva e não nos deixa ir embora.

É para esse apelo familiar que a bússola da banda está constantemente apontada, e é isso que diferencia Horn of Plenty, álbum de estreia da banda, dos seus dois trabalhos seguintes. E é também por esse motivo que só precisamos de ouvir o disco uma vez para que ele nos cative, apesar de não termos todas as camadas à superfície. E perceba-se que, actualmente, com a enxurrada de informação que estamos sujeitos a processar a velocidade recorde, e numa época em que já ninguém tem paciência para ouvir uma música de 5 minutos, aquilo que é mais imediato ganha sempre, sempre terreno. Houvesse o tempo, como havia no antigamente, para nos deitarmos e acordarmos com um álbum, dias a fio, e o culto que rodeia esta banda seria, pelo menos em Portugal, muito maior e adequado aos seus méritos.

Os álbuns que mais nos viciam são sempre aqueles em que todas as suas faixas, gostemos mais ou menos delas, têm, ao virar da esquina, um acorde ou uma linha de voz que nos surpreende ou de que já nos tínhamos esqecido. Aí reside a razão de querermos voltar a elas, naquele hookzinho que nos arrebata de todas as vezes que por lá passamos.

Veckatimest (sim, adivinharam), é exactamente assim: todos os temas valem inteiramente por si, têm uma personalidade vincada e o seu lugar num álbum que, ainda assim, não deixa de ser maior do que a soma das partes. Sejam elas a marcha hiperglicémica do single de apresentação "Cheerleader"; o merry-go-round melancólico de "Ready, Able"; o esplendor pungente de "Two Weeks"; as melodias pastorais, à Fleet Foxes, de "Dory"; ou o despojo de "Foreground".

Bom, e chega de tentar descrever o que não foi feito para ser descrito. Comprem o álbum, "comprem" o álbum, mas não deixem de o ouvir, porque Veckatimest traduz a fórmula de toda a boa música independente: inova sem alienar, sintetiza influências para criar algo maior.

9/10

Escolha dolorosa:

Grizzly Bear - Two Weeks


Grizzly Bear - Cheerleader

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